Os portos do sul da China passaram a funcionar como centros de distribuição
da peste, que tinha agora entre suas áreas potenciais de expansão os portos
marítimos do Novo Mundo. É assim que, alcançando a América do Sul pelo Paraguai
e Argentina, aportou à cidade de Santos em outubro de 1899. Mas desta vez não
estava nas preces e procissões a tábua de salvação das massas desprotegidas.
Ainda em 1894 tinha sido descoberto o agente etiológico em Hong Kong, primeiro
pelo pesquisador suíço Alexandre Yersin, do Instituto Pasteur, que o denominou
Pasteurella pestis (hoje Yersinia pestis) em homenagem ao Mestre, e pouco depois
pelo japonês Shibasaburo Kitasato, discípulo de Robert Koch. O mesmo Yersin
junto ao seu colaborador Henri Carré e também o médico russo W. M. Haffkine,
já haviam preparado as primeiras vacinas que, embora precisassem de aperfeiçoamento,
despontavam como armas profiláticas.
Foi nessa emergência que o governo federal designou Oswaldo Cruz, recém-chegado
de longo estágio em Paris, principalmente no Instituto Pasteur, para juntamente
com Adolpho Lutz e Vital Brazil, designados pelo governo de São Paulo, verificar
a real etiologia da epidemia de Santos. Confirmado oficialmente que a moléstia
reinante em Santos é a peste bubônica, decidiram as autoridades sanitárias
instituir laboratórios para produção de vacina e soro contra a peste: Instituto
Butantan, em São Paulo, e no Instituto Soroterápico Municipal no Rio de Janeiro.
O Instituto Soroterápico resultou de sugestão do Barão de Pedro Affonso - cirurgião
de reconhecida competência, fundador do Instituto Vacínico, primeiro laboratório
produtor de vacina antivaríolica no país - ao Prefeito do Distrito Federal,
Cesário Alvim, que cedeu para instalação do novo serviço a Fazenda de Manguinhos,
convenientemente situada longe do centro urbano. Tencionava o Barão contratar
um especialista do Instituto Pasteur para a direção técnica, mas por indicação
de Émile Roux ofereceu o cargo a Oswaldo Cruz. De posse da lista de material
a ser adquirido, organizada pelo novo diretor técnico, partiu o Barão para a
Europa. Em Paris conseguiu contratar apenas o veterinário Henri Carré, colaborador
de Yersin na produção da primeira vacina anti-pestosa; é que, o governo brasileiro
só o autorizara a oferecer contratos pouco atraentes além de inoperantes, pelo
prazo máximo de seis meses.
Instalados os laboratórios, iniciaram-se os trabalhos, sem qualquer cerimonial,
em 25 de maio de 1900, sob o peso de ingente tarefa a ser cumprida, além dos
diretores administrativo e técnico, por três profissionais - o Coronel-Médico
Ismael da Rocha, bacteriologista do Serviço de Saúde do Exército; o médico Henrique
de Figueiredo Vasconcellos, assistente do Instituto Vacínico; e o veterinário
H. Carré - e um estudante de medicina, Ezequiel Caetano Dias. Mas logo viu-se
a Prefeitura impossibilitada de continuar mantendo a nova instituição, que foi
transferida para a Diretoria de Saúde Pública do Ministério da Justiça e Negócios
Interiores, e inaugurada oficialmente em 23 de julho como Instituto Soroterápico
Federal. Pouco depois, a equipe inicial era desfalcada de dois componentes:
Ismael da Rocha, chamado de volta para o laboratório do Exército, e Carré, que
regressava à França com problemas de saúde, segundo uns, ou com receio da febre
amarela, segundo outros. Mas a competência dos restantes já estava comprovada,
sendo julgada necessária apenas a contratação de um estudante de medicina, Antônio
Cardoso Fontes, e de alguns auxiliares. Nenhum dos cinco remanescentes tinha
a mínima experiência em vacina ou soro contra a peste. Apenas Oswaldo Cruz havia
visitado a seção de soros do Instituto Pasteur, mas seu interesse estava no
preparo da antitoxina diftérica. Tanto em relação à vacina quanto ao soro, os
dados disponíveis na escassa literatura careciam de detalhes precisos que permitissem
seu preparo fora dos laboratórios produtores.
Outros temas de pesquisa foram sendo rapidamente adotados em diversos domínios:
hematologia, bacteriologia, protozoologia, virologia, imunologia e helmintologia.
Inicia-se então radical mudança no panorama acadêmico do Rio de Janeiro: em
vez das habituais compilações baseadas na literatura corrente, surgem em número
crescente monografias baseadas em pesquisas originais que só excepcionalmente
versam sobre a peste. Nomes que ilustrariam a ciência biomédica nacional tiveram
sua formação aperfeiçoada e direcionada sob a orientação de Oswaldo Cruz no
Instituto de Manguinhos.
Entre outros, Carlos Chagas, Ezequiel Dias, Antônio Cardoso Fontes, Eduardo
Rabello, Paulo Parreiras Horta, Henrique de Beaurepaire Aragão, Affonso MacDowell,
Henrique da Rocha Lima, Raul de Almeida Magalhães, Arthur Neiva, Antônio Gonçalves
Peryassú, José Gomes de Faria, Alcides Godoy , Arthur Moses para referir somente
os autores de algumas entre as 23 teses produzidas de 1901 a 1910. O fato de
constarem desta lista não apenas nomes que ingressaram no quadro de pesquisadores
do Instituto, mas também outros que fora dele tornaram-se proeminentes em suas
especialidades, mostra a influência do Instituto na renovação científica do
país. Além das teses, durante essa mesma fase produz o Instituto 120 publicações
originais em periódicos nacionais (a grande maioria no Brazil-Medico) e em revistas
internacionais altamente seletivas, como Centralblatt für Bakteriologie, Biologischen
Zentralblatt, Archiv für Protistenkunde, Archiv für Schiffs und Tropen-Hygiene,
Zeitschrift für Hygiene und Infektionskrankheiten, Münchener Medizinische, Annales
de l’Institut Pasteur, Comptes Rendus de la Société de Biologie e Bulletin de
la Société de Pathologie Exotique. Por essa época a lista de revistas científicas
assinadas para a Biblioteca do Instituto ultrapassava 420 títulos.
Até 1907, quando o Instituto foi premiado com a grande medalha de ouro do
Congresso Internacional de Higiene e Demografia, em Berlim, sua produção científica,
divulgada pelos periódicos mencionados, resultava do trabalho de jovens pesquisadores
que nunca tinham freqüentado outro centro de investigação. Só depois daquele
evento cientistas renomados como Stanislas von Prowazek, Gustav Giemsa e Max
Hartmann manifestaram interesse em trabalhar nos laboratórios de Manguinhos,
aqui permanecendo por longo tempo colaborando em estudos sobre varíola, citologia,
soro antidiftérico, espiroquetose, ciliados, amebas, triconinfas, hemogregarinas
e outros protozoários. O impacto da premiação do Instituto foi decisivo em outros
aspectos. O projeto que transformava o Instituto Soroterápico Federal em Instituto
de Patologia Experimental, adormecido há longo tempo no Congresso, foi rapidamente
aprovado e sancionado pelo presidente Affonso Penna, como Decreto n° 1812, em
12 de dezembro de 1907.
Ao ser aprovado pelo Governo o respectivo regimento, em 19 de março de 1908,
foi oficialmente adotada a denominação Instituto Oswaldo Cruz. Inaugurado em
1908, o Curso de Aplicação foi a primeira escola brasileira de pós-graduação,
verdadeira inovação no panorama científico nacional. Nele se ensinava e trabalhava,
durante dois anos, sobre métodos de investigação e experimentação em microscopia,
microbiologia, imunologia, física e química biológica e parasitologia sensu
lato. Foi assim que especificamente destinado à fabricação de soro e vacina
contra a peste e à campanha contra essa endemia, o Instituto Soroterápico formou
um pequeno grupo que rapidamente absorveu e ampliou o conhecimento científico
e tecnológico necessário ao sucesso da empresa.
De posse desse know-how, uma estrutura medíocre limitar-se-ia a uma produtividade
rotineira, de grande utilidade social mas confinada à sua finalidade imediata.
Quis o acaso, porém, que à frente do empreendimento estivesse alguém preparado
para entender que esse bem sucedido primórdio científico e tecnológico podia
ser ampliado para abranger outros campos da patologia nacional. Com um desenvolvimento
científico nivelado aos mais altos padrões da época, associado à transmissão
do conhecimento através do Curso de Aplicação e à produção de vários agentes
profiláticos, terapêuticos e diagnósticos, já em 1909 o Instituto Oswaldo Cruz
havia assumido, numa seqüência inversa, as tarefas que hoje caracterizam a moderna
Universidade: ensino, pesquisa e extensão. E, para melhor assegurar a difusão
do conhecimento gerado em seus laboratórios, pôs em circulação a partir de 1909
as Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, atualmente o mais antigo periódico biomédico
da América Latina.
www.ioc.fiocruz.br/pages/historia.htm